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Li uma crítica ao feminismo na qual o autor afirma que as mulheres gregas viviam numa condição muito melhor do que os historiadores fazem-nos acreditar. Para provar o ponto dele, cita Medeia. Obras literárias são confiáveis para o estudo da História?

Olha, primeira coisa, você leu Medéia? Assim, porque Medéia é a história de uma estrangeira que largou tudo, traiu a família para ficar com o homem que amava, Jasão. Aí, o sujeito, que era um príncipe, viu que politicamente não era interessante estar casado com uma estrangeira, fez um acordo com o rei da cidade na qual estava e arrumou um casamento com a filha dele. Medéia, que era uma princesa e tinha sangue dos deuses, não se conforma. Jasão faz um discurso sobre as “malditas mulheres” e porque os deuses não permitiam que os homens levassem ouro aos templos e saíssem de lá com filhos, afinal, mulheres eram um estorvo… Por fim, Medéia abandonada promove uma vingança exemplar: mata a noiva de Jasão e o rei, seu pai; mata (*aos prantos*) seus próprios filhos, porque, na Grécia, os filhos eram do marido e não havia forma melhor de atingir Jasão. Se isso é mostrar que as condições das mulheres eram boas, não sei o que era ruim… 

Agora, ao ponto, obras literárias fornecem indícios discursivos de um momento histórico. São discursos e podem e devem ser usados pelas historiadoras e historiadores desde que com uma metodologia adequada. Não devem ser encarados como verdade em si mesma, mas, até aí, nenhuma fonte deve ser. Quanto à vida das mulheres na Grécia no Período Clássico, pois é disso que esse povo adora falar e as peças datam deste momento, ela deveria ser mais plural do que os manuais e os historiadores do “sempre foi assim” gostam de afirmar, até porque, eles geralmente se focam muito em Atenas e esquecem que a Helade era formada por sei lá quantas cidades. 

Claude Mossé, famosa historiadora francesa especialista em Atenas, uma vez disse em entrevista que as pessoas deveriam desconfiar mais das fontes atenienses e parar para se perguntar se a insistência dos homens em certos tópicos a respeito das mulheres não era muito mais uma expressão do desejo deles de submissão feminina e, não como muitos tratam a coisa, como uma prova de que a realidade era assim. Isso é trabalhar como historiador/a: sempre desconfie das fontes e nunca se aproxime delas com verdades prontas.

Não sei que livro e autor são esses que você citou que criticam o feminismo, mas pelo jeito NADA sabe do trabalho das historiadoras feministas.  Mais do que apresentar mulheres como vítimas, as historiadoras feministas vêm buscando apontar que, sim, há a opressão, mas, também, uma diversidade de papéis que os historiadores durante muito tempo fizeram questão de não ver.

P.S.: Esse autor deveria estudar e deixar de tentar transformar seu machismo em discurso acadêmico… Isso, claro, escrevo me pautando pela sua pergunta.

(Source: formspring.me)

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