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O que vc acha da Valesca Popozuda virar tese de mestrado? E acha que algumas músicas dela pode ser considerada feminista?

Recebi esta pergunta, ou outra parecida antes e acabei fugindo de responder, como parece que a coisa realmente está rendendo mais do que deveria, entendo a necessidade de me posicionar. O problema é que o Ask tem espaço limitado para respostas, daí, se puder, reenvie para o Formspring e lá dá para responder melhor. Mas vou tentar colocar algumas questões.

1. O projeto de dissertação de mestrado (*tese é só para doutorado*) não é sobre a Valesca Popozuda. Veja bem o título ““My pussy é poder” – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural.”. A discussão – e pesquisa é investigação, você parte de perguntas a partir das suas fontes, não de certezas – parece ser se há algo de feminista no funk carioca cantado e composto por mulheres e que feminismo seria esse, se ele teria, por exemplo, uma identidade de classe.

2. Não é o primeiro estudo sobre funk, ou melhor, as interações sociais e culturais que este estilo musical possui com quem o produz e o consome. Quando eu estava no primeiro período da faculdade (1993), houve seminários em Antropologia Cultural com um grupo trabalhando (*se muito me engano*) com um texto do Hermano Vianna, talvez o cientista social que mais discutiu a questão do funk carioca. O meu grupo, por exemplo, trabalhou com um texto sobre uma comunidade pentecostal no interior de Pernambuco. Há projetos de todos os tipos, o que torna um trabalho relevante é a competência do/a pesquisador/a em trabalhar o seu objeto.

3. O que chamou a atenção para este projeto em especial, além da divulgação tendenciosa da mídia, parece ter sido a resistência em se considerar relevante trabalhar com as mulheres no funk; o (pré)conceito de que essas mulheres, assim como a música que produzem não ter valor em si mesmas. Em nenhum momento está em questão a afirmativa de que elas são feministas, mas se existe algo de feminista em seus discursos, mais do que nelas mesmas. Agora, por que trabalhar com os MCs homens, com sua música, com as galeras do funk, com a associação entre funk e criminalidade ou funk e racismo ou… é possível e legítimo, mas com as mulheres que produzem e consomem esse material é escândalo? Pare e reflita.

4. Não se trata de valorar o funk como bom ou ruim. Menos ainda, penso eu, de caracterizar a fulana ou a ciclana de feminista, mas de estudar, questionar, destrinchar o que essas mulheres escrevem, cantam, e como isso é recebido pela massa. É feminismo ou não é? Cabe à autora do trabalho se colocar no final de sua pesquisa. O resto é só polêmica vazia, seja de quem desqualifica o funk como um todo, ou as Valescas e Tatis Quebra-Barracos, ou aqueles que passaram a acreditar que Valesca é uma musa do feminismo e que os bailes funk são momentos catárticos de libertação feminista (*sim, feminino é muito pouco…*).

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-topless-imperialista-do-femen-nao-vai-salvar-a-mulher-arabe/ Tapa na cara no movimento feminista-femen.

Não sei se interessa a quem manda esse tipo de pergunta (*foi pergunta, não foi?*) saber qualquer coisa sobre feminismo, ou mesmo se está preocupado/a com os direitos das mulheres, afinal, essa história de “tapa na cara” me parece muito mais o tipo de provocação de troll-machista.  No entanto, reproduzo aqui (*e não vou ficar aumentando o texto, porque, bem, estou muito cansada e tenho mais o que fazer*) o que escrevi neste post no site da Lola sobre a reação aos protestos do FEMEN em crítica ao Islã.  Em linhas gerais, eis o que eu penso sobre o assunto:

 “Eu tenho que discordar desse post em vários aspectos, tenho que concordar com a Marussia e com quem citou o Dawkins (*que é, sim, islamofóbico em muitos aspectos*), e preciso questionar uma coisa: Como assim outra cultura que desconhecemos? 

1. Quando chamamos a prática do islamismo de cultura, mostramos ignorância, sim, ao fato do islã ser praticado de múltiplas formas em múltiplos países. Da mesma forma que há vários tipos de cristãos e judeus, há vários tipos de muçulmanos e muçulmanas. Por que nós somos plurais e os praticantes do islã precisam ser, aos nossos olhos ocidentais, um bloco monolítico? Por que somente a nossa boa cultura ocidental é mutável, dinâmica e a “del@s” está lá paradinha? Isso é uma falácia. Daí temos os homens islâmicos ocidentalizados e as mulheres empurradas para o niqab. Quem não vê que há algo de errado aí, certamente tem problemas.


2. Uma dessas coisas irritantes pós 11 de Setembro é que permitiu que uma leitura fundamentalista de Islã, que diz, sim, que uma muçulmana só é muçulmana se usar véu, se tornasse hegemônica na imprensa e, pior, apoiada publicamente por gente de esquerda para parecer “tolerante” e “multicultural”. Isso não é ser tolerante, é ser complacente com um discurso patriarcal que deseja obrigar todas as mulheres a se enquadrarem em um modelo que é castrador, sim. Lembrando um dos autores homens que usei em minha monografia (*e que falava da imposição a TODAS as religiosas católicas da clausura e do hábito em certo momento*): “Quem se preocupa em vestir, ou despir as mulheres são os homens.”


3. O FEMEN, ou qualquer outro grupo feminista (*ainda que questionemos seu feminismo*), tem o direito de criticar formas de opressão feminina no mundo. E acreditarmos que elas ou nós somos ignorantes de “uma cultura”, é outra ignorância. Vide item 1: os islãs vividos na Turquia são diferentes dos vividos na Indonésia que são diferentes dos vividos no Iêmen, que são diferentes dos vividos… 

Irshad Manji, jornalista feminista, mulçulmana e lésbica, tem um livro muito bom traduzido para o português (*além de um site*); foi citada Ayaan Hirsi, autora de Infiel. Ambas são ameaçadas de morte, perseguidas, por, segundo radicais (*homens e mulheres*) difamarem o Islã. E não pensem que uma ameaça de morte de um clérigo obscuro ou a rejeição a uma mulher que quebra as regras não coloque sua vida em risco. O tradutor japonês de Versos Satânicos foi morto por um radical islâmico em Tokyo. Theo van Gogh, que produziu o filme Submission junto com Ayaan Hirsi, foi morto em Amsterdã quando ia de bicicleta par ao Parlamento. Ele acreditou que um radical islâmico jamais iria ter coragem de matá-lo em seu país. Não pensem que a vida dessa moça tunisiana não está em risco só porque o país não tem pena de morte. 

Há também muitos livros, mesmo quadrinhos, vide Persépolis, escritos por muçulmanas falando das contradições e das opressões, das escolhas e das não escolhas. E existem toneladas de materiais feitos por homens (*e mulheres patriarcais, ou isso só existe entre nós?*) dizendo que não é nada disso… Aliás, dia desses entrei em discussão com uma moça – e detesto escrever em blogs alheios sobre essas questões, porque já sei que vão me chamar de islamofóbica (*como se me importasse*) – que me sugeriu para entender a questão do hijab (*porque gente que defende que véu é liberdade, sempre quer usar o termo árabe e, não, véu*), porque eu, bem, como professora de História e feminista por discordar não entendia, um vídeo. Fui até a página do tal vídeo e descobri que era dirigido e roteirizado por homem e bancado por uma organização missionária islâmica, mas colocava mulheres para falar. Será que aceitaríamos um vídeo feito pela extrema-direita religiosa contra o aborto só porque coloca mulheres para falar. Parem para pensar!

Se somos complacentes com o véu integral, que mulheres, por força de uma leitura do islã se vêem obrigadas (*não se enganem que muitas são obrigadas, sim, mas mentem para se protegerem e aos seus parentes em países ocidentais*), e foi este véu (niqab e burka) o proibido na França, não todos os véus como muita gente gosta de falar, terminaremos tendo que ser complacentes com:

1. A infibulação das meninas em países europeus ou mesmo aqui, porque, bem, é “cultural”. Isso, porque não paramos para ler que a prática precede o islã, não é praticada por todos os muçulmanos e, mais, em países nos quais é praticado tem em grupos de mulheres seus principais opositores. Será que não devemos unir forças com elas? Meu feminismo diz que, sim.

2. Ou que cortes que usem a Sharia se instalem por vários países, como se instalaram em certas regiões da Inglaterra. Afinal, é cultural e vão decidir questões pequenas como direito de família. A sharia diz que mulheres recebem metade da herança de um homem. Será que temos que concordar com isso permitindo que mulheres muçulmanas sejam cidadãs de segunda classe em países ocidentais? E a luta das feministas para que todas nós tivéssemos cidadania plena, não vela para elas nem em países ocidentais?

3. Ou ainda que concordemos com uma juíza alemã que citou a sharia para amparar sua decisão contra uma esposa que apanhava do marido, porque, bem, culturalmente, ele como muçulmano tinha o DIREITO de bater nela? E esse é somente um de muitos caos escandalosos dentro da Europa.

Desculpem o longo comentário, mas eu fico realmente furiosa quando há tanta complacência com a opressão que muitas (*não todas, não em todo lugar, não desde sempre*) mulheres muçulmanas sofrem, quando se perde noção da pressão do grupo, quando um tipo de fundamentalismo (*Irshad Manji chama de arabização do Islã*) passa a ser visto como o único e dizemos “Amém”. Não somos (*nem podemos*) ser tolerantes com Felicianos, mas não podemos ser tolerantes igualmente com práticas radicais islâmicas que confiscam direitos das mulheres (*que não tem direito em países ocidentais de abrir mão de aspectos de sua cidadania, não, ou a própria noção de igualdade vem abaixo*). E mais, paremos de tratar a prática do Islã como monolítica, porque isso é, sim, mais uma demonstração de colonialismo, “os outros são todos iguais, sempre foram a mesma coisa, só nós (*ocidentais*) mudamos”, porque isso só serve para permitir que mais mulheres e meninas muçulmanas sejam oprimidas bem debaixo dos nossos narizes.

 Se quiser uma imagem menos cor de rosa e multiculturalista complacente com a dominação das mulheres, recomendo uma visitinha a este site que celebra o véu (hijab). É feito por muçulmanas e tem pérolas ótimas como “Hijab: porque minha beleza pertence somente ao meu marido” (http://bit.ly/10xVXia). O véu liberta de quê? De quem? Vestir ou despir mulheres (*vale para o Ocidente, também, viu?*) só interessa aos homens, é o olhar deles que norteia tudo isso.

(Source: ask.fm)

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