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Valeria eu estava lendo as respostas anteriores e tive uma dúvida. Por que no Japão o aborto é legalizado e a pílula antoconcepcional só foi liberada em 1999 (é isso mesmo?)? Os dois são “mal vistos” pela sociedade em relação à mulher, por exemplo?

A maioria dos países asiáticos mais importantes – Índia, China, Japão, Coréia do Sul, etc. – descriminalizaram o aborto ou ampliaram e muito a legislação permissiva, porque tinham altas taxas de natalidade e precisavam controlar o crescimento exagerado da população. Questões de ordem moral, religiosa ou cultural ficaram em segundo plano. Veja que, por conta disso, o desequilíbrio demográfico entre populações masculinas e femininas jovens na China e na Índia é enorme.

O aborto, na maioria das vezes, não é a primeira opção de uma mulher. É algo que pode ser encarado com alguma tranqüilidade por algumas, mas representa em alguns casos (*a depender das condições nas quais é realizado*) risco de vida e de esterilidade, sem falar das possíveis seqüelas psicológicas. Muitas mulheres se vêem ou são obrigadas a abortar por pobreza, por estarem sozinhas, por não poderem contar para e com os pais, por serem jovens ou velhas demais, e em casos muito perversos por estarem grávidas de um feto do sexo errado… Geralmente, uma menina. Curiosa e felizmente, o Japão, apesar de ser uma cultura patriarcal e muito centrada no masculino, não desenvolveu a prática do aborto seletivo de meninas.

Na maioria das vezes, a mulher que aborta está só e a coisa pode ser encarada como um castigo por sua promiscuidade. Já vi muita gente boa, cristã, desejando que mulheres que abortam fiquem estéreis ou, melhor ainda, que morram. E ouvi isso de pessoas próximas e queridas minhas, mulheres principalmente, que foram muito bem adestradas e que acreditam que tais coisas só acontecem com gente ruim. Obviamente, essas mulheres más não são o “próximo”, pois “ama o seu próximo como a ti mesmo” não se aplicaria para gente assim.

E qual é a maior crítica à pílula? Como método anticoncepcional mais seguro, ela dá à mulher o controle sobre o momento em que deseja engravidar. E qual o argumento para não aprová-la? A pílula promoveria a promiscuidade. Quem decide isso? Uma maioria de homens – que nunca engravidarão, mas podem engravidar – e velhos. Obviamente, só este argumento não resolveria, então você precisa convocar o discurso médico – discurso de verdade por excelência – para justificar. Então tome: a pílula engorda, ela traz alterações de humor, ela causa câncer! Imagine isso sendo colocado em lugares estratégicos.

Ah, mas e outros métodos anticoncepcionais? A camisinha, por exemplo? Nesse caso, pode. Quem tem o controle? O homem. Nenhuma relação sexual com camisinha acontece sem a colaboração do parceiro. E muitas mulheres são levadas a crer que pedir para que seu parceiro use é motivo de vergonha, levar uma camisinha na bolsa é sinal de que você é uma mulher sem moral. Pergunto se novo: Quem tem o controle? Por isso, não aprovar a pílula e permitir o aborto é tornar as mulheres reféns. Eu sou a favor do direito de aborto regulamentado pelo Estado em determinadas condições, mas aborto não é método anticoncepcional e mulheres me muitos lugares do mundo, aqui no Brasil mesmo, são levadas por várias circunstâncias a encarar este procedimento dessa triste forma. Espero ter explicado a questão.

Manga, Anime, Cinema, História, Feminismo, etc. Responderei se puder!

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